POR JUREMA DE AVELLAR

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Foto de Kelly Lacy no Pexels

Não era uma segunda feira qualquer. Geraldino Fontes caminhava carregando o mundo nos ombros, a cabeça repleta de preocupações. O sobrinho recém chegado, mais mulher e filho, sem emprego fizera-o recordar quando, movido pela mesma esperança, descera para o sul maravilha a vinte anos. Deixara para trás as águas mornas da Paraíba e, como tantos conterrâneos, arriscara a defrontar as águas azuis e mais frias da cidade maravilhosa. A dureza, ele e Maria, bem como os filhos e já agora dois netos, enfrentaram, mas agora o espaço ficara apertado; comera todo o terreno com avanços para…


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Foto de Brett Jordan no Pexels

Bem, não era exatamente uma fazenda, mas não era nem de longe o lugar que acalentara os sonhos da mulher no banco de trás, estupefata.

— Chegamos! — anunciou o motorista.

Estavam diante de um casarão descascado, remendos de cimento aqui e ali, janelas altas, algumas com vidros. quebrados. Havia chovido durante a noite e o chão estava barrento.

Os pequenos não enxergavam nada além daquela vastidão verde e pulando por cima dos sapatos novos da mãe, lançaram-se à liberdade. Antes que pai e mãe pudessem dar um grito sumiram atrás da construção.

Gomes desceu e sem palavra começou a…


POR JUREMA DE AVELLAR

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Foto de Ricado Esquizel no Pexels

Tereza entrou em casa com raiva. Era evidente o semblante contrariado. Como isso tinha acontecido? Como Darcy, sua melhor amiga há mais de vinte anos se atrevia a tal comportamento? Um absurdo!

Diná, a mãe, aproximou-se recolhendo o brinquedo impiedosamente chutado. O que acontecera, Deus meu?

— Darcy arranjou um namorado! — respondeu Tereza.

— Mas ela não é livre, ora essa? — retrucou a mãe.

— É separada do marido, mãe.

A raiva era quase palpável.

— E o que você tem com isso? Deixa a moça ser feliz. Cuida da sua vida. …


POR JUREMA DE AVELLLAR

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Era um dia comum de março. O amanhecer tinha trazido com ele a claridade naquela rua de calçamento já quase inexistente de terra vermelha, estreita e de pouco movimento.

O farmacêutico abria a porta, usando sua força fazia subir o rolamento escuro. Já agora trabalhava na segunda. Da padaria vinha o cheiro do pão fresco e as primeiras pessoas chegavam. O Virgílio da banca de jornal, já a postos empilhava os jornais recebidos e as revistas de cores vistosas, prontas para serem dependuradas no exterior da banca.

Alguém varria seu pedaço de calçada e mais ao…


POR JUREMA DE AVELLAR

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A hora se aproximava e o corre-corre era natural naquelas circunstâncias. A mãe pressurosa acalmava o marido, que bradava por sua privacidade na suíte, ofendido pela intromissão dos parentes. Sua maior insatisfação era a cor do terno, assunto batido e rebatido tantas vezes quantas quisera impor seu gosto pelo tradicional azul marinho. E lá estava o cinza (detestável) que a esposa determinara e nada mais tinha a fazer senão envergá-lo. “Azul marinho fora de moda! Quem já ouvira tamanho disparate!”


POR JUREMA DE AVELLAR

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Imagem de StarGladeVintage por Pixabay

Acabou-se a escravidão! decretara a princesa,

Santa bela de Altar, branca, como das igrejas.

Que livres todos se tornem, abram seus novos caminhos.

Caminhem para longe levando

Nos ombros seus novos destinos.

Mas novas sementes brotavam

Não tão de repente tiveram, vários caminhos traçados,

Pois misturadas elas foram, todas sem muitos critérios,

Sobreviventes marcharam, para trás deixaram cemitérios.

Os brancos mantiveram os lucros, com braços brancos chegados,

E com eles de novo bebiam o gosto doce da vida,

Matando a fome do lucro, por eles tanto buscado.

Baniram os corpos escuros, sempre tão doloridos,

Não mais…


POR JUREMA DE AVELLAR

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Se você é brasileiro responda logo ligeiro,

Como vê a sua terra, como vê a sua raiz?

Fala a língua portuguesa, que tem tanta beleza,

Que conta belas passagens, te fazem sorrir feliz!

De onde veio essa gente, de qual distante continente,

Com a sorte contando, trabalhando e guerreando.

Debaixo de sol e de chuva, as estrelas seguindo,

Buscando o Novo, deixando de lado o velho Oriente.

E o que enfim encontraram, bravos conquistadores?

Além de praias desertas, selva toda fechada,

Animais podiam ser , seres humanos, quem sabe?

Gente tão diferente, de aparência inocente,

Que…


POR JUREMA DE AVELLAR

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Dizem que o coração não sente dor, apenas se rebela com o gasto e se retira. Será? Falarei aqui de um grande vilão, nosso companheiro: o Amanhã. Ao longo da vida, você perde momentos preciosos exercendo as obrigações, seguindo a linha prática das tarefas, espiando com medo o esvair do tempo, sempre resumido. A noite te reserva o resumo antecipado do dia seguinte, cheio de repetições, às vezes até com maiores desafios e a sensação de que não houve espaço para praticar o carinho, o amor. Mas não há o que fazer, o dia se foi…


POR JUREMA DE AVELLAR

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Sete e meia, hora da missa Rob!

Espreguiçou-se olhando a figura à sua frente.

— Não vou.

— Como não? Eu te criei dentro dos preceitos…

— Não vou.

— … da fé cristã com todas as obrigações e …

— Já tenho dezesseis anos, percebeu?

Impropérios, ameaças. De alguma forma já estava se acostumando. Naquela manhã a professora falara, falara, mas Robson não ouvira. Isso acontecia às vezes, um transporte só seu.

— Come espinafre.

— Essa droga eu detesto, pô!

— Palavrão aqui dentro? Respeita tua mãe! — era o pai.

Impropérios, ameaças.

Lembrava-se…


POR JUREMA DE AVELLAR

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Remexeu o café no copo, misturando o açúcar, fazendo “boca” para o cigarro. A criançada corria pra lá e pra cá numa algazarra à qual já estava acostumado; juntava-se aos vizinhos da vila e os ruídos de risada e choro alternavam-se, coisas de todo sábado. Não tinha nada para fazer, só ver o tempo passar. Televisão era uma droga, nem um mísero futebol e ainda precisava aguentar as chatices das novelas, cachaça de mulher, rotina obrigatória do casamento e do seu resultado avassalador: QUATRO FILHOS!

— Dinheiro para comprar margarina, pai! — o mais velho estava…

Jurema de Avellar

Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.

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