POR JUREMA DE AVELLAR

Foto de Sonja Maric no Pexels

Sempre conferia seu cartão com certo menosprezo, não se considerava um sortudo ( a vida lhe ensinara) , mas naquele retângulo de papel da firma onde estavam os números escritos rapidamente por um colega de trabalho, havia algo de familiar, embora duvidoso. Uma sensação incômoda lhe agitava o coração, descia estranhamente pelo estômago e subia de volta à garganta. “Tolice, Argemiro.” O medo e o mal estar persistiam, um enjoo tão forte que não conseguia engolir o café… Decidiu-se afinal, dirigindo-se ao banheiro.

Escolheu o último reservado e trancou-se enquanto puxava o papel dobrado, envergonhando-se da…


Por Jurema De Avellar

Foto de Faaiq Ackmerd do Pexels

“Preparemo-nos para o frio”

Era a ordem. O indicador mostrava à direita a queda como grande sinal. Escovar lãs e peles, armazenar vitaminas e a incrivelmente grande colmeia se mexia. Gravava-se o Verde nos eletrônicos, marcava-se a hora e a época. O fogo de tons azulados subia para aquecer e aconchegar; quem vivia em estágio Y podia tê-lo em espirais ou também para outros de N, subidas eletronicamente controladas por notas musicais.

O estágio era importante: tirava ou dava oportunidades em uma subida sinuosa, nem sempre disputada por muitos, mas carregada de seriedade. Mel e Gordura…


Por Jurema de Avellar

Foto de David Besh no Pexels

Sentados na soleira da porta, Vinicius, João e Martinha aguardavam a chegada do avô de Vinicius que lhes prometera uma boa história. Vovô Francisco era ótimo contador: alegre, criativo, fazia piadas e arrancava risadas, além de segurar a atenção. Ele chegou a varanda e se acomodou em sua cadeira de balanço, pronto para cumprir a promessa feita às crianças.

— Estão prontos para ouvir a história?

— Estamos! — responderam.

— Vou contar a vocês a história do caboclo Anselmo, que vivia lá no cerrado, nas terras do Jalapão. — e começou:

“ Três crianças, todos…


POR JUREMA DE AVELLAR

Foto de Elle Hugues , Pexels.

Naquela casa de linhas antigas e convencionais. o jardim de roseiras e dálias coloridas finamente cultivadas chamava atenção. Nessa frente bem cuidada passeava Eugênia, a proprietária. Minúsculos caminhos em linhas curvas propiciavam o acesso. Aleias de margaridas demarcavam os limites laterais. Ela tocava as flores com delicadeza, conferia os novos botões e, quando preciso, realizava as podas. Poderia ficar por ali o dia todo, mas seu tempo só lhe permitia as manhãs.

A residência passara nos últimos anos por melhoramentos buscando modernizar a aparência. Sua entrada, antes lateral, fora demolida; a escada estreita e velha sumira…


POR JUREMA DE AVELLAR

Foto de Kelly Lacy no Pexels

Não era uma segunda feira qualquer. Geraldino Fontes caminhava carregando o mundo nos ombros, a cabeça repleta de preocupações. O sobrinho recém chegado, mais mulher e filho, sem emprego fizera-o recordar quando, movido pela mesma esperança, descera para o sul maravilha a vinte anos. Deixara para trás as águas mornas da Paraíba e, como tantos conterrâneos, arriscara a defrontar as águas azuis e mais frias da cidade maravilhosa. A dureza, ele e Maria, bem como os filhos e já agora dois netos, enfrentaram, mas agora o espaço ficara apertado; comera todo o terreno com avanços para…


Foto de Brett Jordan no Pexels

Bem, não era exatamente uma fazenda, mas não era nem de longe o lugar que acalentara os sonhos da mulher no banco de trás, estupefata.

— Chegamos! — anunciou o motorista.

Estavam diante de um casarão descascado, remendos de cimento aqui e ali, janelas altas, algumas com vidros. quebrados. Havia chovido durante a noite e o chão estava barrento.

Os pequenos não enxergavam nada além daquela vastidão verde e pulando por cima dos sapatos novos da mãe, lançaram-se à liberdade. Antes que pai e mãe pudessem dar um grito sumiram atrás da construção.

Gomes desceu e sem palavra começou a…


POR JUREMA DE AVELLAR

Foto de Ricado Esquizel no Pexels

Tereza entrou em casa com raiva. Era evidente o semblante contrariado. Como isso tinha acontecido? Como Darcy, sua melhor amiga há mais de vinte anos se atrevia a tal comportamento? Um absurdo!

Diná, a mãe, aproximou-se recolhendo o brinquedo impiedosamente chutado. O que acontecera, Deus meu?

— Darcy arranjou um namorado! — respondeu Tereza.

— Mas ela não é livre, ora essa? — retrucou a mãe.

— É separada do marido, mãe.

A raiva era quase palpável.

— E o que você tem com isso? Deixa a moça ser feliz. Cuida da sua vida. …


POR JUREMA DE AVELLLAR

Era um dia comum de março. O amanhecer tinha trazido com ele a claridade naquela rua de calçamento já quase inexistente de terra vermelha, estreita e de pouco movimento.

O farmacêutico abria a porta, usando sua força fazia subir o rolamento escuro. Já agora trabalhava na segunda. Da padaria vinha o cheiro do pão fresco e as primeiras pessoas chegavam. O Virgílio da banca de jornal, já a postos empilhava os jornais recebidos e as revistas de cores vistosas, prontas para serem dependuradas no exterior da banca.

Alguém varria seu pedaço de calçada e mais ao…


POR JUREMA DE AVELLAR

A hora se aproximava e o corre-corre era natural naquelas circunstâncias. A mãe pressurosa acalmava o marido, que bradava por sua privacidade na suíte, ofendido pela intromissão dos parentes. Sua maior insatisfação era a cor do terno, assunto batido e rebatido tantas vezes quantas quisera impor seu gosto pelo tradicional azul marinho. E lá estava o cinza (detestável) que a esposa determinara e nada mais tinha a fazer senão envergá-lo. “Azul marinho fora de moda! Quem já ouvira tamanho disparate!”


POR JUREMA DE AVELLAR

Imagem de StarGladeVintage por Pixabay

Acabou-se a escravidão! decretara a princesa,

Santa bela de Altar, branca, como das igrejas.

Que livres todos se tornem, abram seus novos caminhos.

Caminhem para longe levando

Nos ombros seus novos destinos.

Mas novas sementes brotavam

Não tão de repente tiveram, vários caminhos traçados,

Pois misturadas elas foram, todas sem muitos critérios,

Sobreviventes marcharam, para trás deixaram cemitérios.

Os brancos mantiveram os lucros, com braços brancos chegados,

E com eles de novo bebiam o gosto doce da vida,

Matando a fome do lucro, por eles tanto buscado.

Baniram os corpos escuros, sempre tão doloridos,

Não mais…

Jurema de Avellar

Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.

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