POR JUREMA DE AVELLAR

Foto de Kelly Lacy no Pexels

ão era uma segunda feira qualquer. Geraldino Fontes caminhava carregando o mundo nos ombros, a cabeça repleta de preocupações. O sobrinho recém chegado, mais mulher e filho, sem emprego fizera-o recordar quando, movido pela mesma esperança, descera para o sul maravilha a vinte anos. Deixara para trás as águas mornas da Paraíba e, como tantos conterrâneos, arriscara a defrontar as águas azuis e mais frias da cidade maravilhosa. A dureza, ele e Maria, bem como os filhos e já agora dois netos, enfrentaram, mas agora o espaço ficara apertado; comera todo o terreno com avanços para o lado e para cima, e aí como dizer não ao seu sangue, batendo a sua porta em total desamparo? Era uma situação cascuda! Mas era um lutador, um trabalhador e fora com esse espírito que cruzara a sala naquela manhã, ainda tomada pelo escuro da madrugada e dera o maior tropeção de sua vida, valendo-lhe um mindinho quase quebrado. Aceitara os pedidos de desculpas dos parentes espalhados no chão, mas seu humor estava prejudicado.

A realidade estava no ar, nas paredes cinzentas, nos ruídos vindos das ruas e sobretudo na dor infernal vindo do seu pé dentro do sapato. Nunca antes como naquele dia sua cabeça tinha ficado tão enxameada de pensamentos e reflexões, todas acompanhadas de uma revolta, um homem sentindo-se lesado.

Temperatura amena a daquele dia de maio, encheu os pulmões de ar, ajeitou a camisa dentro das calças e tomou o rumo do corredor interno. Já se movimentava bastante o saguão do edifício comercial na sua continua dança de entra e sai, cada uma das pessoas com algo a fazer, um dia como todos os outros, um dia de trabalho normal. Sentiu as ondas de dor acometerem mas era melhor esquecer, não era hora de frescuras! Rotina diária há muitos anos, olhou a alavanca, uma velha conhecida meio gasta pelo manuseio, mais que a sua patroa, e riu mentalmente da grosseira comparação.

— Bom dia seu Fontes. — Bom dia Dona Laura.

— Bom dia Geraldino. — Bom dia Dr. Cintra.

— Bom dia seu Geraldino. — Bom dia Dra. Angelina.

— Bom dia amigo Fontes. — Bom dia Maurício.

— Como vai velho Fontes. — Bom dia Dr. Euclides.

— Bom dia Geraldino. — Bom dia senhor juiz.

Uma verdadeira sinfonia de afeto do que ele chamava de “residentes”. Havia os que dividiam salas, horários; isso era comum em advogados, pediatras, dentistas e obstetras; dividiam-se também em confecções, esteticistas, laboratórios de análises, psiquiatria em vários andares e até um maneiroso cabelereiro. Dra. Lucy era presença certa das segundas e quartas feiras e muito lhe agradava pois além de gentil, usava uma deliciosa colônia (só podia ser francesa), impregnando por instantes o seu local de trabalho. O Dr. Neves do décimo quinto era do tipo sério, convencional, mas seu olhar era afetuoso. O casal de dentistas, Dr. Ernesto e Dra. Leila, sempre lhe trazia agrados nos inícios de semana — Para os netinhos, Geraldino! E saiam com a alegria que só à juventude é dada. A atendente do quinto, mulher brincalhona, foliã inveterada do Salgueiro, era sempre risonha. E tantos e tantos, já partes de sim mesmo, um pouco sua família, distribuindo bons modos e consideração, como por exemplo o chefe da oftalmologia que ao sair o fazia com um forte aperto no ombro, significando quem sabe esperança, ou “as coisas vão melhorar”.

A partir das oito horas modificava-se o estilo. Mirava a fila mal arrumada na sua direção e dos outros elevadores. Sensações estranhas o assaltavam naquela manhã; anteriormente, com a ajuda de uma pequenina chave, retirara o painel e servindo-se das manhas adquiridas, tornou sem efeito o alarme e também o numerador acima.

A porta se abriu e a turba entrou trazendo aromas variados ( e por que não dizer cheiros), decididamente seu espírito era de perdigueiro. As maneiras diferiam, a maioria tinha informações a pedir, apesar do grande quadro na entrada. Quase todos, ele sabia, mal continham um friozinho no estômago e todos gritavam o número do andar como se temessem sair voando pela cobertura por culpa de um irresponsável astronauta. E neste momento o quieto trabalhador passava pelas agruras do acidente caseiro, diante do entra-entra da tribo afobada, ofendida na maioria das vezes diante de seu aviso de lotação, iniciava-se a travessura. Onde estavam os “bom dia”, “por favor” e “obrigado”? Como se portaria aquele heterogêneo contingente humano numa pequena emergência? Sim, ele sabia que o tempo não seria tão longo quanto desejava, os malditos bombeiros viriam logo depois do seu “chove não molha”. Avaliou mentalmente cada “espécime” reunido, tinha a seu favor a hora, o acúmulo de material e o ruído de reforma sendo feita num dos andares, o oitavo, para mudança de firma. As portas se fecharam ao som dos protestos dos que ficaram: havia gente que pensava que elevador era que nem a patamo da polícia, sempre cabia mais um.

“Sobe” . Obediente, a máquina encetou a marcha num arranco, meio louca, subindo sem paradas, debaixo de “Terceiro”, “Sétimo”, “Eu não falei quinto?”, “Sétimo, sétimo, vou ficar no laboratório de análises”, “Ficou doida essa coisa”. Tudo dito ao mesmo tempo, sem intervalos, sem descanso, mas em perfeito sincronismo de acotovelamento. O vozerio era uníssono, tal qual a geral do Maracanã.

Hoje irão todos mas é pra *******” , falou o cérebro do ascensorista, fazendo o possível para manter todos os estômagos nas respectivas gargantas. Veloz foi a subida e súbita foi a parada, exatamente entre dois andares. Magistralmente conduzida, a máquina pareceu maluca, deu um longo pigarro e parou. Um breu invadiu o recinto, fazendo brotar de todas as bocas um “oh” comprido. Refizeram-se logo ao acender das luzes de emergência. Várias mãos antes das suas disputaram freneticamente o botão de alarme. Nada! Geraldino esperava pacientemente o alarido e protesto da galeria. Cansarão logo, deduziu e apoiado na manivela matutava: será que alguém lá embaixo notou alguma coisa diferente? Começou um serviço de observação: algumas caras eram conhecidas e isso muito o alegrou. As portas deram a enganosa impressão de que iriam se abrir mas, para desespero do grupo, deixaram entrever apenas uma réstia de paredes, sugerindo estarem acima do sétimo. Cabeças disputavam as olhadelas, todas vencidas pela única criança presente, um menino de uns sete anos, alegre e excitado pela aventura. Opiniões variavam mas os olhares caíam inevitavelmente no empregado, cobrando dele alguma atitude.

— Calma pessoal, só leva um minuto, eles vão vir consertar — ele disse, procurando melhor posição no seu banquinho e também melhor ângulo para analisar as vítimas. Mantinha um sorrisinho no canto da boca, numa tentativa de passar segurança aos apertados passageiros. Na verdade olhava cada um calmamente, não podiam nem imaginar fosse ele o artífice daquela inusitada situação. As maravilhas que se pode fazer com astúcia e experiência de longos anos de serviço.

— Passou gente pra lá! — falou o menino.

— Quem? Quem? Tem alguém aí? Abram logo esta ****!

Tempo para identificar os falantes? Impossível! A criança foi providencialmente puxada antes de ser esmagada de encontro ao aço frio. O andar estava em obras, o elevador de serviço usado sem folga, os ruídos de serras e marteletes impediam a chegada de imprecações e pedidos de socorro. O pobre botão de alarme recebeu uma nova e mais completa saraivada de tapas de todo sua vida e, em meio aquele tumulto, uma voz irritada sobressaiu: Animais, quase mataram meu filho!

— Senhora, a situação é ruim para todos . E você aí seu velho, bota essa merda para funcionar!

Geraldino espalmou as mãos sobre os controles, não sem antes assentar os olhos na fisionomia do homem; já o conhecia de longa data: usava sempre camisas de seda, uma grossa corrente de ouro no pescoço terminada num medalhão a lá Roberto Carlos e a expressão inconfundível de paquerador inveterado. Lá no fundo, furando o cerco, aproximou-se um senhor com o paletó no braço. Demonstrava aflição e perguntou timidamente:

— Se gritássemos todos juntos o que aconteceria?

Fontes não fez por menos:

— Eu ficaria completamente surdo!

A resposta pareceu acintosa e ele foi encarado como cidadão inimigo da comunidade. A mamãe aflita, num acesso impensado resolveu esmurrar a porta, mas se arrependeu ao quebrar duas unhas.

— Podem me dar atenção? Eu e minha amiga estamos tranquilas.

Todos deram a atenção pedida, ainda mais por se tratarem de duas mulheres jovens e atraentes; o pinta da corrente tratou logo de se acercar, procurando em detrimento de outros ampliar seu espaço. Estufou o peito e travestiu um ar de super homem, encarando as fêmeas. O ascensorista achou que era uma boa hora de desfazer a pose e fez um movimento brusco de vai e vem na alavanca. Como previra o seu Dom Juan suburbano , com olhos de susto, engrossou o já bem ensaiado coro de “vamos despencar”, “virgem santa” e “cacete”. Havia uma mulher, Fontes agora via bem, que muito quieta apertava de encontro ao peito a bolsinha e uma caixa de sapato.

— Meu nome é Celso — o homem sem paletó voltava à carga — e sei que a essa altura o defeito já foi notado, vamos esperar sem pânico.

Pior que o cabra todo borrado tem razão, pensou Geraldino. Minha brincadeirinha não vai durar, e continuou sua representação nos controles.

— Tomara estejam consertando, nada de pavores.

Encontrou a dona da voz: levava um jeito de ex-bailarina, esguia de corpo, unhas longuíssimas e um ridículo começo de calvície resultante do penteado exigido em sua profissão. Sempre com seu passinho curto, nariz pra cima, jamais se dignando a um cumprimento. O velho bem que gostaria de vê-la descabelar-se. Estava meio frustrado, será que ninguém nesse elevador vai ter um ataque de claustrofobia Deu uns sacolejos na máquina e sobrecarregou a todos como um olhar sombrio. Nessa manobra subiu um pouco mais ao seu lugar escolhido, o andar em obras e agachado pelo lado de fora alguém falou:

— Ué Fontes, qual é o problema?

Era o Marcelão da limpeza. Gritaram todos ao mesmo tempo em resposta e o inquiridor, não encontrando uma posição confortável, desapareceu. Com a ida do Marcelão o clima voltou a esquentar e pra não perder mais tempo o funcionário fez a alavanca “dançar” á sua ordem, tendo o cuidado de manter-se entre os andares, fazendo ruir de novo o rebolado do cavalheiro das nobres sedas. Gritinhos, abraços solidários e a palavra mágica: BOMBEIROS!

Geraldino Fontes cutia embora sabendo que a qualquer momento abririam a porta.

— Juntos poderíamos forçar esta porta, mantê-la aberta e um por um iria subindo; seria o fim do pesadelo — alguém falou.

Palmas ecoaram e imediatamente atiraram-se à obra, desordenados mas decididos. Geraldino deixou que um pouco de esforço fosse feito e depois, aproveitando-se de um momento de descanso dos valentes contendores, jogou no ar em fala compungida:

— Li uma vez coisa parecida, até pode dar certo. Seguraram a porta e tudo ia bem, mas aí…

Nesse ponto passou a procurar nos bolsos algo que jamais pretendia encontrar, mantendo sobre ele doze pares de olhos ansiosos.

— E depois?— era o menino.

— E aí o maldito foi mexido lá embaixo e um ficou sem a cabeça, o outro sem as …

— Pare, pare seu.., seja lá quem for. Veja o que fez! — era uma das belas.

— Vou vomitar…

— Aqui não — desespero generalizado — Alguém pode me dar licença, vou tocar de lugar — protestos gerais — tentem compreender…

Desprezando o mal estar, Fontes se concentrou na senhora um pouco à sua direita, pálida mas séria, durona. Lembrou-se dela: certa vez queixou-se do seu mau cheiro, imaginem! Cheiro de homem de trabalho, que vê o sol nascer dentro de um trem superlotado, que no verão não sabe se vai ter uma “surpresa” ao abrir a marmita.

— O senhor aí, incompetente, não me abra mais essa boca!

Fora o Leopoldo quem falara. Enfocou-o novamente, esfregando as mãos nervosas na camisa sedosa: esse era sabidamente funcionário do estado mas vivia mesmo de cobranças fraudulentas, acenando sempre com multas e grandes dores de cabeça aos não pagantes.

— Diante de tal situação, por que todos não nos apresentamos ?— disse o cara que tinha cara de padre.

Houve toques de mãos, sorrisinhos amarelos , olhares flamejantes, pedidos de licença e alguns empurrões — Maria do Carmo, Silveira, Mónica, Tânia, Paulinho, Gabriela, Leopoldo, etc. Ninguém se interessou pelo homem do banquinho. São todos uns filhos da mãe! , considerou ele.

A mocinha de trás avisou:

— Gente, estou ouvindo barulho, devem ser os bombeiros — e enxugou o suor com seu lenço rosa.

— Quero fazer xixi — era o menino de novo.

— Ora — falou o Silveira — é o menor dos problemas. Basta aproveitar a fresta com seu canudinho.

Com um repelão a mãe puxou o pequeno , mirando com ódio o “brilhante criador”.

— E se essa droga fecha de repente? Hein? Ponha o seu “canudinho” aí, se tem coragem.

Suavam agora todos, os malditos. Só sentia pelo garoto. Vamos ver quem vai reclamar do meu bodum! E Geraldino sentiu-se feliz só de pensar. Engraçado, por que ninguém nuca pensou em escrever sobre o bodum, a catinga, o cêcê?

O garoto fitava a mãe e ela falou :

— Aguenta!

— Pois eu sinto muito, sou velha, diabética e sei muito bem quais são os meus direitos. E no momento anuncio que vou urinar!

E se o disse, melhor o fez; em profundo estado de graça “deixou cair” , não se importando com a remexida que seu simples ato havia provocado.

— Francamente, não esperava isso de uma senhora de sua aparência!

— Isso é o Inferno de Dante!

— Licença, vai me molhar os sapatos!

— Passa logo para cá, menina…

— Por que eu, “gracinha”?

— Tá de tênis, solado grosso.

Fontes tinha lágrimas nos olhos de tanto rir. A bailarina magrela colara-se nele sem nenhum preconceito na tentativa de escapada.

— Estou me sentindo meio fraca — disse uma das charmosas. Houve nova e apressada troca de lugares.

— Pisou no meu pé, sua…

— Está querendo conforto, dengosa

— EU QUERO SAIR!

—Basta! Eu exijo um basta! — era a dona da caixa de sapato. Manifestara-se pela primeira vez e prosseguiu controlada — Estamos fazendo papel de palhaços, baderneiros, mal educados e por causa disso ninguém percebeu que os bombeiros chegaram. Vigaristas “cantam” mulheres, pessoas mijam sem decoro algum, outras se agridem e o ascensorista morre de rir, e assim por diante. Proponho que essa cambada se mantenha imóvel e calada até essa geringonça se colocar no seu lugar devido e a maldita porta seja aberta, e possamos sair todos em segurança.

— Ora essa — intimou o recomposto Leopoldo — quem está pensando que é?

— Alguém que no momento dispõe de irrefutável autoridade: dentro desta caixa estão materiais fecais colhidos de toda minha família que trouxe para exame, e na falta de melhor uso vou jogar para cima, se alguém der mais um pio!

— Moça — a voz do garoto soou cautelosa — o que é esse negócio de “fecais”?

Antecipando-se, o ascensorista respondeu alegremente:

— Merda, meu filho, muita merda!

E Geraldino Fontes, chefe de família, paraibano, pagador de impostos, que deixara a sua terra natal para enfrentar a cidade grande achou que tudo valera a pena. E com a eletricidade ligada, o seu manejo esperto, a sua experiência da chave mágica, o alarme tocou estridentemente!

A plateia se manteve séria e contrita.

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Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.

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