POR JUREMA DE AVELLAR

Não há mais o que discordar e, mesmo, não haveria Tempo. O Algodão deve ser colhido onde encontrado; seus fios trabalhados e amaciados pois precisamos envolver e proteger nossas Mazelas Morais. Proteção de Mãos e Pés para os Sãos, porque os que já se perderam envolvem tristemente os Crânios.

O Grupo da Esperança os vigia; afasta-os de empecilhos, águas polidas, espinheiros e abismos. E a Horda gira, gira, gira…

Às vezes, centenas se rebelam, gritam, ferem-se nas muralhas ásperas, agridem seus defensores e, depois de grandes esforços, esses dois exércitos caem, debilitados, sofridos, aparvalhados, olhando nos olhos de seus salvadores, Pés e Mãos suplicando o Algodão tranquilizante para lhes envolver as cabeças. Perguntam:

— Ainda existe a Guerra ?

— Ainda.

— Poderiam repartir nossa Solidão?

— Nunca o farão.

— O que temem afinal?

— A Disputa. Somos Diferentes.

A criança indaga à mãe:

— Essa muralha vai continuar? Estou cansado.

— Está lá há séculos. Seres como nós a procuram porque a Porta existe. Mas gerações inteiras fizeram a grande jornada e não a encontraram. Mas por que nós não teríamos sorte?

E todos param e tecem o Algodão.

— Abra bem os olhos para ver o que risquei na areia.

— Estão abertos, eu vejo.

— E gosta?

— Digo que tem Beleza e mais ainda, Amor.

— Esfrega o Sal do Mar em teu rosto, mudarás.

— Ele queima.

— Então as Águas Doces dos rios que nos matam a sede.

— Não há mudanças. Se existisse maior quota de Algodão… seria maravilhoso.

— Ontem uma Criatura se alimentou de alguém como tu, eu vi as Plantas dos Pés.

— Os teus se aproximam. Fica sabendo que muitos olhos azuis, pêlos dourados, têm seu sabor para as mesmas criaturas.

Planícies, desertos, florestas, rios, mares violentos, tudo atravessado pela Horda, onde os fortes prosseguiam e os mais fracos se deixavam ficar, sem lamentos. Terras diferentes, costumes, línguas, vestes, temperaturas… Apenas uma coisa se parecia entre eles: o Estender de Mãos.

— Quando veremos o Esplendor? A Luz Brilhante que se acende com o Sol e morre também com ele?

Lá ao longe, a resposta se fez. E a Horda apressou o passo, correu, atropelou-se, pisoteou-se, e os mais fracos, os bebês, ficaram para trás. Era enorme, teria quilômetros. Comprimiam-se todos no Cristal Brilhante, embevecidos com o Verde de muitos tons, o Branco dos Abrigos e os Cantos Maviosos de Humanos, de Pássaros, odor de Comida, Vinhos…

PARAÍSO, PARAÍSO, PARAÍSO!

Olhos verdes, negros, castanhos, azuis, olhavam indiferentes e voltavam às suas atividades. E a Horda gritava possessa:

— Queremos entrar! Queremos entrar! Temos o Direito, o Orgulho, o Talento, somo Iguais, dê-nos chance , podemos provar nosso Valor, vejam do que somos capazes!

E erguidas no ar as Artes Várias, subindo aos céus sua vozes de Cânticos Sublimes, da areia surgindo as Retas, Retângulos, Esferas, Perspectivas, a Matemática Avançada! Colheram indiferença, negativas de Esperança e, dentre seus iguais a frase anônima:

— Prisão engraçada. Estamos fora, não dentro!

A noite desceu. O Cristal brilhou somente com a luz das estrelas e um a um continuaram a caminhada, estonteados, embrutecidos, desapontados, carregando seus poucos fardos de Algodão…

EXCLUSÃO SOCIAL

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Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.

Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.