POR JUREMA DE AVELLAR

Foto de Elle Hugues , Pexels.

Naquela casa de linhas antigas e convencionais. o jardim de roseiras e dálias coloridas finamente cultivadas chamava atenção. Nessa frente bem cuidada passeava Eugênia, a proprietária. Minúsculos caminhos em linhas curvas propiciavam o acesso. Aleias de margaridas demarcavam os limites laterais. Ela tocava as flores com delicadeza, conferia os novos botões e, quando preciso, realizava as podas. Poderia ficar por ali o dia todo, mas seu tempo só lhe permitia as manhãs.

A residência passara nos últimos anos por melhoramentos buscando modernizar a aparência. Sua entrada, antes lateral, fora demolida; a escada estreita e velha sumira e optara-se pela central, subtraindo-se uma janela. Uma porta larga fora ali aplicada, mais moderna e brilhante. A sua frente ganhou uma varanda que se parecia mais com um grande curativo. O acréscimo mal pensado desprezou detalhes importantes, trazendo à fachada total falta de equilíbrio e nenhum estilo. Quatro colunas altas e retas sustentavam a adição e o objetivo fora trazer mais opulência. Era a única casa da rua a possuir telefone.

Sentado em uma das desconfortáveis cadeiras de ferro da varanda, o dono da casa, Senhor Antonino, tomava seu banho de sol, observando o trabalho da esposa. Anos antes também por lá estivera gozando da mesma alegria, mas… a saúde lhe faltara. O velho fazia pequenos gestos para chamar atenção da esposa. Finalmente feito o contato, a senhora gritou, ao consultar o relógio de pulso:

— Vicentina, traga água e o remédio!

Logo surgiu uma mocinha descalça, já trazendo o copo e o comprimido. O velho tomou o remédio e bebeu com satisfação toda a água. O sol já o tinha alcançado a alguns minutos e ele fez um gesto com as mãos, girando-as. A moça sumiu dentro da casa, livrou-se do copo e retornou trazendo uma cadeira de rodas. Embora ele conseguisse de alguma forma andar, aceitou de pronto a ajuda e passou para a outra peça confiante na força da garota. Ela inclinou levemente a cadeira, venceu o desnível e deixou-o junto de outra janela na sala ampla.

Três degraus abaixo, a senhora acompanhava a cena. Eficiência e rapidez eram a marca daquela ajudante, reconhecia. Gritou novamente:

— Vicentina ! Ponha o resto da água no feijão e abaixe o fogo. E acabe logo com aquela roupa que já está de molho. Está uma moleza hoje!

O sol banhava agora todo o jardim. Ela tirou as luvas, guardou em um nicho no muro a tesoura de poda e subiu os três degraus, entrando na casa. Uma criança chorava dentro do primeiro quarto. Ela entrou no aposento. No berço o berreiro já era bem alto e na cama, profundamente adormecida, a filha Diná parecia não ouvir. Dona Efigênia sacudiu-a com firmeza . A filha espreguiçou-se a sentou devagar. Via-se agora, carregava uma gravidez média e, em câmera lenta, achegou-se ao impaciente, beijando-lhe os cabelos. Foi sua vez de gritar:

— Vicentina, traga a mamadeira! — e soltou um longo bocejo.

Efigênia pensava naquele momento em sua outra filha, Josefina: mais velha, mãe de três filhos, moradora da mesma rua mais acima. Era bem diferente de Diná: determinada, ativa, era a filha prestimosa e a única a dispensar carinho ao velho pai. Aproximou-se da filha grávida e disse:

— Diná, vem mais um filho. Tem que aprender que a vida não é só engravidar, dormir e tocar piano.

Vicentina entrou no quarto, já trazendo fraldas limpas e a mamadeira quentinha. O menino de dois anos parou de chorar estendendo para ela os bracinhos confiantes. Do berço à cama de casal a criança fez uma viagem relâmpago e as lágrimas se converteram em risos. Foi trocado e sentado apoiado nos travesseiros agarrou a mamadeira morna.

Vicentina recolheu as roupas sujas e saiu. Segundos depois, já correndo atrás dela o pequeno José Carlos entrou na cozinha. Com seus passinhos graciosos, passeou o olhar buscando qualquer coisa para mexer. A amiga “Vi” apareceu rápido, tirou-lhe das mãos o vidro vazio e o levou com ela para a bancada do tanque, sentando-o no cimento ao lado. Fez uma vigorosa mexida na roupa de molho no sabão e mostrou à criança o bolo de espuma, ensinando-lhe a soprar. Aquilo era melhor que qualquer brinquedo e por longos minutos ele brincou enquanto ela esfregou a roupa.

Na cozinha Diná e Dionísio, o irmão mais velho, resolviam como se virar diante do café já frio. Houve um pequeno estranhamento, uma troca de palavras ásperas e logo os dois voltaram à mesa, dividindo pão e manteiga. Diná queixava-se da evidente falta de banho do irmão. Eugênia entrou e endossou a reclamação enquanto cuidava da peça de carne, espalhando nela temperos e vinagre.

Com João Carlos ao lado, Vicentina pensava: como a criança era invisível aos outros membros da casa teria que descer com ela e a roupa as escadas altas e perigosas. Não havia mais espuma e levá-la com ela e o balde pesado seria difícil. Não tinha alternativa: desceu a criança e voltou correndo para buscar o balde. Lá embaixo, sempre debaixo do olhar vigilante dela, o menino correu e pulou, enquanto ela fazia o serviço. Subiram juntos, ela e a criança que os outros pareciam não ver. Acumulava funções mas prosseguia seu trabalho e mantinha atenção no pequeno pois sabia que, qualquer descuido, seria a ela imputado o erro.

Sua volta à cozinha não passou despercebida ao homem que lá permanecia, sentado diante do café. Dionísio, que durante anos a maltratara, agora a vigiava como um gato vigia um rato. Ela lavou as louças usadas na manhã, olhou o feijão, jogou na panela quente as carnes temperadas e deixou até dar-lhes cor e aroma. Sentia o olhar pesado do filho de Eugênia. A moça, que devia ter entre treze e catorze anos, não tinha certeza, tinha pernas e braços fortes e os seios já afloravam. Aprendera que devia estar sempre alerta à proximidade de Dionísio.

O derrame sofrido por Antonino só fora percebido pela filha mais vela, Josefina. Providenciara logo socorro médico e assim ele sobrevivera, mas perdera a capacidade de falar. No início Eugênia se mostrara uma esposa zelosa, mas também ela já não era mais jovem e logo se deu por vencida. Dionísio providenciara a vinda de um enfermeiro três dias na semana e isso desafogara a mulher. Antonino podia andar, bem devagar mas podia, mas quando se aventurava pelo corredor causava engarrafamento e então o filho comprara a cadeira de rodas, o que facilitava a vida de todos.

De Dionísio só se podia dizer que, além da aura de mistério que envolvia sua vida, era mesmo um cara estranho e imprevisível. Tinha o costume de produzir, mesmo fora de época, um festival de fogos de artifício, dos mais caros e vistosos. Primeiro fazia subir os rojões como se estivesse convocando os vizinhos. As janelas próximas se abriam, os sobrinhos mais velhos desciam a rua e alguns curiosos compareciam. O céu se iluminava enquanto os fogos subiam e tudo terminava com um vulcão que a todos encantava. Queimava tudo, quase sem intervalos, mal dava tempo para a apreciação e como se tivesse algo urgente a fazer retirava-se sério, em seu pijama listrado, ainda envolto em fumaça. Seu apelido era “Mané Fogueteiro” e saía de cena debaixo dos comentários mais variados. Passava dias e noites sem dar notícias e a mão torcia para que fosse algum relacionamento amoroso em curso.

A vinda do enfermeiro para os cuidados do velho fazia com que todos ficassem aliviados. Quando se ouviam as palmas do lado de fora era um mar de felicidade. Vicentina era logo mandada para fazer a limpeza do quarto, agora desimpedido. O quarto de Eugênia e Antonino era enorme, mas bem arrumado. Os móveis eram luxuosos, as cortinas eram de qualidade e a única coisa feia era o penico. Embora fosse de louça inglesa, seu interior estava sempre lotado. Mas ela já se acostumara.

A rotina de Vicentina era acordar bem cedo, subir as escadas, abrir a porta com sua chave, pegar a leiteira de alumínio e o dinheiro lá deixado e correr até o botequim, trazendo também os pães ainda quentes. Dona Eugênia chegava, colocava a manteigueira sobre a mesa e o que mais houvesse, enquanto preparava o café. As duas eram as primeiras a tomar o café da manhã e dali a dona da casa levava a refeição matinal para o marido. A louça era colocada na pia e o leite era fervido: assim o dia começava. Preparava a comida sempre com Vicentina nas finalizações, que tudo ia aprendendo no dia a dia.

Depois de alguns dia sem sua presença, Dionísio reaparecera com um caminhão de entregas. De dentro surgiu, nas mãos fortes de dois homens, um aparelho enorme de televisão. Os caras fizeram seu trabalho, instalaram a antena no telhado e se foram. À tarde, ligada a geringonça, com a poltrona favorita de Eugênia e a cadeira de Antonino posicionadas na frente, ambos ficaram olhando a figura de um índio, em preto e branco por horas. Pareciam hipnotizados pela imagem muda. Diná logo se cansou e João Carlo só ficara alguns segundos. A figura sem movimento não atraía uma criança cheia de energia:

— Vi, Vi! — o menino saía gritando.

Havia algumas tardes em que o mal cheiroso irmão de Diná brincava de pega-pega na cozinha, sob as gargalhadas ingênuas do garoto. Vicentina tinha olfato apurado e furtava-se das apalpadelas do fogueteiro na hora certa. A esperta garota derrubava as cadeiras produzindo estrondo, trazendo assim a figura raivosa de Efigênia, que empurrava o filho de volta ao quarto e dava-se ao luxo de espinafrar a moça.

Vicentina tinha poucas lembranças de como viera parar naquela casa. Lembrava-se de muita poeira e muita gente rindo no que parecia ser uma festa. Certa vez, a alguns anos, estava no jardim com a dona da casa, ajudando a tirar matinhos e tiriricas, ervas daninhas que teimavam em surgir dentre as belas flores. Sua cabeça surgia e sumia por entre os talos altos e floridos. Uma velha conhecida de Eugênia parara no portão para uma breve conversa. Não se viam há muito tempo e o derrame de Antonino era o assunto, até que ela viu a mocinha em determinado momento, com as mãos cheias de mato.

— Quem é essa menina parda? Arranjou empregada? — perguntou a mulher.

Vicentina nunca ouvira essa expressão. Que era aquilo? Por que a chamavam assim?

— Não, não — respondera Eugênia- — É filha de criação. Nós a adotamos. Estava faminta, doente, cheia de piolhos e aqui ela vive como se filha fosse.

As duas mulheres voltaram aos seus assuntos e logo a outra se despediu desejando melhoras para o Antonino. Isso acontecera logo depois do casamento de Diná cujo marido andava sempre de farda verde, a ela parecendo fantasiado de “Periquitão”. Aboletara-se sem cerimônia na casa dos sogros. Olhava-a com desprezo, mas tinha que reconhecer que era um pai amoroso. Quando estava em casa dava toda atenção ao filho. A mulher, Diná, tinha seus momentos ao piano, mas agora o aparelho de televisão atrapalhava um pouco seus horríveis recitais.

Vicentina lembrava de dormir por muito tempo no canto da cozinha, junto à despensa, mas agora habitava o espaço do porão, debaixo da escada. Afinal, seu crescimento e atributos físicos fizeram com que a dona da casa tivesse preocupações mais do que justas em relação a ela e o filho amalucado.

Quando Dionísio não estava em casa, Eugênia abria o quarto do rapaz e com Vicentina fazia uma faxina que incluía, além da troca das roupas de cama, lavar com sabão todo o quarto, incluindo a mobília. As janelas eram abertas e o “bodum” espantado. Lá só se podia entrar na ausência dele e respirando pela boca. Depois de feita a limpeza, as janelas permaneciam abertas e a mãe trancava a porta.

Numa certa manhã a mocinha pegara a leiteira e o dinheiro e, com o dia clareando descera as escadas para ir ao botequim. Na porta da frente, Dionísio enfiara a chave e entrara em casa. Enquanto Vicentina chegara ao meio do caminho, Dionísio se jogava exausto e bêbado no quarto. Andando rápido como sempre, a garota teve sua atenção atraída por um pequeno embrulho amarrado, caído na calçada. Pegou-o curiosa e para seu espanto era um maço de dinheiro, todo bem preso com elástico. Um pouco trêmula, olhou em volta: não havia ninguém por perto. Enfiou no bolso do avental que usava e foi ao botequim. Ansiava por voltar para casa para poder verificar o achado, mas cumpriu sua rotina e só ao meio dia pôde fazê-lo. Nunca tinha visto tanto dinheiro em sua vida. Não sabia que na verdade aquela fortuna caíra dos bolsos de Dionísio e ele nem percebera. Cautelosa ela escondeu bem o seu achado e prosseguiu como se nada houvesse acontecido. O dia transcorreu normal, o almoço foi feito e servido, a louça lavada e agora ela passava a ferro algumas peças de roupa.

— Vicentina, traga água e o remédio do Antonino!

Apressou-se em cumprir a ordem, sempre seguida por João. Mas ao se aproximar do velho, posicionado em frente à televisão, reparou que ele não precisaria mais de nenhum medicamento. A esposa a seu lado, hipnotizada pelo aparelho, nada percebera. Ao lado de Eugênia o velho partira dessa para melhor.

*****

No espaço lateral da casa havia muitas pessoas formando pequenos grupos. Três homens estranhos, amigos de Dionísio mantinham-se na rua, junto aos curiosos, esperando o grande momento, a hora decisiva.

Cercado por todo aparato luxuoso que Dionísio providenciara, Antonino S. Macadouro parecia feliz. Talvez estivesse ao poder livrar-se daquele circo: uma filha que impunha a todos seus recitais medíocres, um filho sem higiene e de ocupação duvidosa, um genro que se encostava e uma invalidez desagradável. A mulher já o largara a própria sorte a tempos e um estranho lavava sua bunda dia sim, dia não. Se tivesse que sentir falta de alguém seria de Josefina, a filha carinhosa e dedicada.

Dionísio fizera o seu melhor. Contratara o féretro mais caro e luxuoso e enchera a casa com coroas de flores em nome das pessoas da família. Naquela época os velórios eram feitos na sala principal das residências. Quando o carro fúnebre parou diante da casa o público presente se preparou para ver o espetáculo de dor dos parentes no adeus definitivo. Com a mesma expressão de quando soltava fogos de artifício, Dionísio posicionou-se com os amigos num dos automóveis que tinha alugado. No outro carro, também alugado, entraram a mãe, as filhas e o sobrinho mais velho. Todos controlados, deixando os espectadores frustrados. O morto foi acomodado no carro funerário entre grandes penachos pretos e saíram rumo ao cemitério.

Na sala da casa, os funcionários da funerária desmontaram o aparato e se foram, deixando muitas flores esmagadas para a mocinha varrer e limpar. Em pouco mais de meia hora, com o pequeno João Carlos ranhetando atrás dela, tudo voltara ao lugar. Dera a ele o colo pedido e agora a criança dormia sossegada. O pai tomou-o nos braços e levou para o quarto, onde permaneceram.

— O pássaro voou para o céu! — disse a seu lado uma das amigas de Eugênia, passando-lhe duas xícaras usadas de café.

Mais tarde, já com todos de volta, estabeleceu-se na sala uma reunião de família. Depois de algum tempo todos na casa se recolheram e a última xícara de chá foi servida por Vicentina no quarto da viúva. Não havia choro, apenas suspiros profundos e em pouco tempo a casa ficou silenciosa.

A mocinha enfim desceu as escadas dos fundos e entrou naquele que era o seu quarto de dormir. Lá juntou tudo que possuía, usou uma colcha de retalhos, fazendo com ela uma trouxa e com um lenço preto de renda que alguém havia esquecido sobre o piano prendeu os cabelos compridos. Chegara a hora de alçar o seu voo, não para o céu, mas para a liberdade. A escuridão da noite era propícia. Usou a lateral da casa, desceu a rua e viu-se na avenida. Tomou o ônibus depois de alguns minutos de angustiante espera. Pedira informações aos passageiros, o lenço preto a fazia parecer mais velha.

Ao chegar à rodoviária na Praça Mauá sentiu-se mais nervosa do que quando saíra da casa, pois ali tudo era novo, desconhecido mas nada a faria retroceder. Tinha uma boa quantia em dinheiro mas nenhum documento então teria que procurar alguém que com ela se parecesse, pardo é claro. Encontrou uma senhora de aparência humilde e a seu lado uma menina do seu tipo. Aguardava ali por alguém ou iria empreender alguma viagem. Isso! Aproximou-se tirando da cabeça o lenço que a envelhecia e indagou para onde a senhora iria.

— São Fidélis — foi a resposta.

Confiando em sua sorte , contou-lhe brevemente sua história triste.

— Algum documento você tem? Nem a certidão de nascimento?

— Na verdade eu poderia passar por sua filha. Só preciso que compre a passagem — e mostrou o dinheiro já separado.

— Que idade você tem? — interessou-se a senhora.

— Acho que tenho catorze.

— Acha? Não tem certeza? Quando é seu aniversário? — a mulher agora estava verdadeiramente surpresa.

— Nunca soube — respondeu Vicentina.

— Qual o seu nome?

Vicentina teve segundos para pensar. Odiava seu nome de tanto ouvi-lo sendo gritado todos aqueles anos.

— Rosa Maria — respondeu com o coração disparado.

A mulher continuava a olhar para ela como um bicho raro.

— Se me fizer este favor — Vicentina continuou — dentro do ônibus eu lhe darei mais dinheiro. Juro que não é roubado. Sei cozinhar, lavar e passar e logo conseguirei um emprego se a senhora me ajudar.

Encontrara a pessoa certa? A sua frente estava uma mulher: mãe, pobre e de bom coração, claramente sensibilizada. Pegou o dinheiro que Vicentina lhe estendia e comprou mais um bilhete, em nome de Rosa Maria da Silva, sua filha. O homem do guichê nem discutiu diante das três pessoas. Carimbou o papel e lhe deu a passagem.

Já dentro do ônibus, Vicentina deu o dinheiro prometido, sem revelar todo o montante que possuía. A senhora da qual se aproximara tinha nas mãos um presente divino, fora sem dúvida a mão de São Jorge, santo de sua devoção que a ajudara neste momento difícil. Apertou com força a mão da mocinha, agradecendo a boa sorte. Vicentina pegou seu lugar no fundo do ônibus e suspirou de alívio quando saíram da rodoviária, em direção a uma vida nova e sem dúvida melhor que a que levara até aquele dia.

Na estrada escura e cheia de curvas, Vicentina, agora Rosa Maria da Silva tentava enxergar o exterior, abocanhar ávida sua mudança de rumo. Poderia trabalhar, ganhar o seu sustento, com pagamento justo, sem carregar o fardo mentiroso de “filha de criação”, sem ser perseguida por aquele “camarada” nojento e mau caráter.

O ônibus fazia paradas em lugares nunca dantes conhecidos. As pessoas desciam, todos com seus destinos traçados, e ela ali estava rumando ao desconhecido e cheia de esperanças. Às primeiras horas da manhã o sol apareceu encontrando a moça plenamente acordada e pronta para descer em seu destino final. O sorriso da boa senhora fez-lhe ver que ainda dela teria ajuda. Acompanhou-a sem medo!

*****

Às seis da manhã, também no casarão a vida começava. Eugênia ouvia o barulho do genro no banho e sabia que dentro em pouco o neto abriria o berreiro. Dirigiu-se à cozinha e estranhou a porta ainda fechada. A leiteira continuava no mesmo lugar, assim como o dinheiro para ser gasto. Onde estava Vicentina, já atrasada?

A viúva abriu a porta e em dois passos inclinou-se sobre o cimento do peitoril, vendo a porta do porão fechada. Desceu alguns degraus e munida da vassoura deu três pancadas fortes. Teria ela perdido a hora? O genro, vestido de “Periquitão”, já de banho tomado procurava pelo café. Ao ver a sogra reclamando desceu ao porão e encontrou-o vazio. Seu filho já choramingava, pedindo a mamadeira.

Diná e Eugênia esbarraram-se no corredor, a mãe já nervosa. O filho mal cheiroso foi acordado e com maus bofes queria saber o que estava acontecendo. Ninguém se entendia. A garota não estava na casa! Como ela teria saído sem dinheiro? Eugênia entrou em seu quarto e foi direto vasculhar o porta joias: tudo estava em ordem. Sua gaveta particular, só ela tinha a chave, que ficava pendurada em seu pescoço. Retornou à cozinha, ouvindo o choro de João Carlos.

— Pelo menos um café… — reclamava o genro.

Agora toda a família estava na varanda. O nome de Vicentina tinha sido gritado pela voz esganiçada de Diná em vão. Os vizinhos em suas casas começaram também a se movimentar para suas próprias atividades. Mas aquela não era uma manhã comum e todos foram atraídos pelos gritos raivosos da casa de Eugênia. Josefina apareceu assustada e nas janelas os vizinhos exibiam suas caras surpresas. O espetáculo da dor, tão aguardado na véspera, acontecia agora em altos brados.

— Vicentina fugiu! — gritou Eugênia, os lábios sem cor.

— Ingrata, desgraçada! — berrava Diná.

— A polícia vai pegá-la! — assegurou o “Periquito”, com o filho no colo.

— Não passava de uma vagabunda! — completou Dionísio.

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Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.

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