POR JUREMA DE AVELLAR

Remexeu o café no copo, misturando o açúcar, fazendo “boca” para o cigarro. A criançada corria pra lá e pra cá numa algazarra à qual já estava acostumado; juntava-se aos vizinhos da vila e os ruídos de risada e choro alternavam-se, coisas de todo sábado. Não tinha nada para fazer, só ver o tempo passar. Televisão era uma droga, nem um mísero futebol e ainda precisava aguentar as chatices das novelas, cachaça de mulher, rotina obrigatória do casamento e do seu resultado avassalador: QUATRO FILHOS!

— Dinheiro para comprar margarina, pai! — o mais velho estava à sua frente meio magricela, cabelo claro e liso, precisando de apara, pés sujos do campinho do lado. “É só gastar”, pensou, e deu a nota ao guri, que saiu aos pulos com o vira lata correndo atrás. Lembrou de si mesmo quando pequeno, era a sua cara. Impressionante que o outro molequinho também. As meninas saíram mais à família da Odette e uma delas levava o jeito de sua falecida sogra.

Augusto, vizinho da terceira casa, veio chegando e depois de entregar a sacola na janela encaminhou-se para a soleira, sentando-se ao seu lado. Era bom sujeito, bom amigo, meio bobo às vezes e quando vinha falar sobre o Vasco era de lascar! Carregava o peso de um honroso chifre, todos sabiam, mas parecia conformado com a sorte.

— Odette, vê um cafezinho aqui.

O homem acomodou-se, puxando um pigarro e começaram o papo de fim de semana: inflação, trem atrasado, dinheiro curto…

O café requentado rodou algum tempo nas mãos até verem sair a fumaça. Falaram sobre o circo que fora montado bem próximo, açulando a meninada: é, iam morrer naquilo sem escapatória.

— Sabe — o dono da casa começou — no nosso tempo fazíamos as mesmas coisas, brincávamos do mesmo jeito, mas comíamos melhor!

— Isso é verdade — concordou o outro, sorvendo o líquido quente. Eu fui criado numa casa que tinha manga e goiaba no pé: era uma beleza! Manga que não acabava mais e minha mãe — pôs a mão no coração — fazia sorvete para não estragar. Sem falar na amoreira e na carambola… No vizinho do lado dava sapoti, conhece?

— Claro, também peguei essa. Mas, agora, fruta tem que ser comprada na feira e a bom preço. O meu velho — continuou enquanto matava uma formiga — ainda mora lá pra cima, é onde as crianças gostam de se divertir, mas sabe como é, tá chato, birrento, começa a implicar, não sobe aí, não mexe ali , e a mulher fica “pau”… — aproveitou o vão da porta e coçou as costas — Tenho medo de qualquer dia bater lá e encontrar meu pai morto, sozinho, mas ninguém o convence a sair.

— E se ele bater as botas, como é que fica?

— Vendo imediatamente, mas já viu, naquela lonjura o preço vai ser baixo. Falei uma vez com a Dette na hipótese de ir morar lá, pois a casa é boa, grande, me livrava do aluguel; foi o mesmo que xingar a mãe! Nem pensar! Cadê supermercado, o pediatra fica longe, etc. E pensando bem, eu teria que ir de carro todo dia pro trabalho, transitando um bom pedaço e a minha Brasília tá velhinha, não ia aguentar. Tem ideia do preço dum pneu?

— Pois eu até gostaria de viver aí pra cima, bem no meio do mato, cara.

“Pra esconder a galharia”, maldosamente o pensamento se fez mas, arrependido, resolveu mudar o rumo da conversa. Porém Augusto voltou a falar:

— Se conseguisse uma vaga no interior eu ia, mulher gostando ou não gostando. Poderia ser Ribeirão Preto, minha firma tem filial lá, deve ser uma cidade boa, bom clima, vida mansa, sem assaltos e crimes…

— Ia botar paletó e gravata do mesmo jeito na segunda-feira — o outro brincou. Mas deixa pra lá, temos que ficar é aqui mesmo e cá pra nós, que ninguém nos ouça, não engulo paulista.

— Seu Marcílio, da casa defronte é paulista, não vai dar fora. Já soube o que o idiota do filho dele fez? — e diante da expressão curiosa prosseguiu — Ouviu falar no quartel lá dos fuzileiros navais, onde tá servindo que, se alguém ficasse meio “lelé” era reformado na hora e caía no “à toa”. Daí começou a embirutar!

— Mas como?

— De sacanagem, ora. Dizia coisas esquisitas ou então ficava parado de olho arregalado, olhando pro nada.

— E então?

— Resolveu fazer a grande jogada: matou uma mosca imaginária na cara do sargento!

— Não acredito! Como foi?

— Sei lá, mas ouvi dizer que ele começou a andar de um lado pro outro, até ser notado e mandou uma tapona nas fuças do superior. Agora tá lá, preso, fazendo um monte de exames, o pessoal está meio desconfiado.

Antônio pegou nos braços o caçulinha de um ano, inquieto, levado, já se equilibrando nas perninhas gordas, tentando os primeiros passos. Segurou a mamadeira enquanto a mulher corria de volta pro interior da casa, aproveitando a breve pausa. O danadinho não queria o suco, queria brincar, mexer e num repelão tirou o isqueiro do bolso do Augusto. O pai riu orgulhoso, afinal o moleque estava uma parada. Concluiu que apesar de tudo havia algo de bom nessa vida.

— E o Vasco, Augusto, como vai?

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O COTIDIANO É O COMUM

É AQUILO QUE SE TEM E NÃO SE QUER

É O QUE SE AMA SEM SE DAR CONTA

O PEDAÇO DE VIDA QUE DESPONTA

O INVARIÁVEL E JÁ SABIDO

O ESPERADO E JÁ SOFRIDO

MAS DETESTA-SE PERDER ALGUM

Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.

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