POR JUREMA DE AVELLAR

Sete e meia, hora da missa Rob!

Espreguiçou-se olhando a figura à sua frente.

— Não vou.

— Como não? Eu te criei dentro dos preceitos…

— Não vou.

— … da fé cristã com todas as obrigações e …

— Já tenho dezesseis anos, percebeu?

Impropérios, ameaças. De alguma forma já estava se acostumando. Naquela manhã a professora falara, falara, mas Robson não ouvira. Isso acontecia às vezes, um transporte só seu.

— Come espinafre.

— Essa droga eu detesto, pô!

— Palavrão aqui dentro? Respeita tua mãe! — era o pai.

Impropérios, ameaças.

Lembrava-se do dia do casamento de sua irmã mais velha, quando fora obrigado a usar aquela ridícula gravata; reviu os movimentos de vizinhos e curiosos no portão pra ver a noiva e junto a eles os amiguinhos de rua, surpreendidos com a sua inusitada elegância, surpresa de passagem rápida para o riso. Um deles lhe disse no dia seguinte — parecias um fresco — o que resultou em uma bela escaramuça.

“Não faz isso, tua mãe não gosta.”

“Se a mamãe te ver com essa revista te mata.”

“Gato? Nem pensar, mamãe vai ter um troço.”

A primeira comunhão: engraçado como sempre durante as missas sentia uma vontade terrível de fazer pipi. “Ajoelha menino! Abaixa a cabeça garoto. Levanta, num tá vendo todo mundo em pé?. Se esconder uma patifaria do padre a hóstia se atravessa na garganta e tu morres! Larga a bola de gude, acompanha a Leila e o Beto, olha lá, não deixa os dois sozinhos senão te pego.”

Essas coisas fervilhavam na sua cabeça enquanto levava ao colo a cachorrinha sem elite e de orelhas caídas, mas naquele momento a coisa mais preciosa e importante da sua vida; tinha que enfrentar a fera.

O olhar era tristonho, humilde, olhar de pedinte; havia sinais de alegria logo apagados pelo pressentimento de perigo. Ouvia o diálogo sem compreender as palavras mas sabendo sem dúvida seus significados. Esperava entre um e outro afago.

— Por favor, nunca pedi nada parecido antes…

Irredutível!

— Sou eu quem vai cuidar.

— Conheço essa história. Depois fica tudo nas minhas costas e também não dá pra sustentar, a vida tá cara.

— Comerá sobras, poxa. Você vive dizendo que respeita as leis de Deus, mas está indo contra elas negando abrigo a um ser desamparado. (Eu fiz esse discurso?) Vou contar pro padre agora mesmo!

Sentiu haver tocado num ponto sensível e desfiou mandamentos guardados no fundo da memória, esse era o caminho. Desarmada e vencida, a mulher deu as costas rumando para o interior da casa. O jovem aplicou duas palmadas carinhosas no animal e enquanto este lhe retribuía com lambidas começou a imaginar que nome daria aquela criaturinha inocente e meiga; sim, porque todos tinham direito a uma identificação.

Naquela tarde na escola ouviu todas as sugestões possíveis e descobriu como era difícil nomear alguém. Queria algo novo, diferente e engraçado. “Põe Ivone, a professora de português! Todos riram, mas ainda não era o desejado. Depois de escutar uma infindável galeria ainda se mantinha indeciso.

Voltou pra casa e deitado em seu quarto ficou ouvindo a voz intolerante da mãe relatando ao pai a sua nova aquisição. Mas pelo jeito o velho estava mais interessado na TV e respondia “sim”, “é”, “tem razão” por puro automatismo. Ela era uma chata ; o pai, as irmãs e até outras pessoas da família diziam isso e além de tudo ainda o chamava de “filho temporão”, aquele que vem sem ser querido ou esperado. As obrigações e beatices com a igreja “lotavam”: apegada aos santos, velas, ladainhas…

Despertou do devaneio com a voz autoritária invadindo seu refúgio (quando será que ela vai aprender a bater?), aplicando todos os decretos e leis em relação ao animal. Deixou o falatório prosseguir sem interrupções, constatando enquanto ela falava como sua mãe era… sua mãe? A porta fechou-se ao mesmo tempo em que se sentava na cama maravilhado ! Sua Mãe! Sim, claro, não poderia haver nada mais original, mais que nomes de cadelas de raça, rainhas, ministras, vedetes, estrelas de cinema e televisão. Finalmente achou o que procurava e nessa noite dormiu relaxado e feliz.

No dia seguinte guardou metade do seu pão, generosamente lambuzado de manteiga e chamou a bichinha três vezes no pequeno jardim, escandindo bem as sílabas, pacientemente esperando sinal de atendimento, arrematou com carinho a comida. Enrodilhou a camisa , fazendo um arremedo de bola e atirou longe, não sem antes lançar um olhar ressabiado para a casa, dizendo: “Vá buscar, Sua Mãe!

Na escola, os amigos indagaram curiosos.

Diana, respondeu.

— Vira lata com nome de princesa? — alguém comentou.

— Botei e pronto! — e encerrou a conversa.

A cadela em uma semana conquistou o velho, que a tratava por “Menina” e também fez a alegria dos sobrinhos naquele domingo, prestando-se a mil brincadeiras. Energia e fôlego foram testados de parte a parte.

Dois meses desde sua chegada, o desenvolvimento mostrava o quanto valeram os sacrifícios do jovem que, às escondidas, privava-se de partes de comida em seu favor; e ao alimentá-la, banhá-la e levá-la a passeio repetia o nome escolhido, certificando-se, sem a menor dúvida, que Sua Mãe atendia.

Pilhado em plena praça um dia, a novidade se espalhou; de nada valeram as negativas, as invenções e as explicações. Teve que aturar entre constrangido e furioso, as brincadeiras maliciosas que a sua ideia fornecia. Suportou a situação certo de que outros acontecimentos e fofocas em breve iriam ocupar o espaço, e assim sucedeu.

Ventava bastante e uma chuva ameaçava cair naquela tarde quando ele cruzou o portão de madeira. Não se ouvia o som enfadonho do radinho de pilha e, julgando-se impune, gritou “Sua Mãe”, dando-lhe o biscoito que trouxera. O animal ainda pulava de alegria quando ele deparou com a cara da mãe na janela.

Naquela noite o jantar foi um pesadelo: abalada, mas recuperada do choque inicial, Dona Laura, apesar de fula, se desfazia em lágrimas, amparada pelo marido. Seu Edevaldo chamou-o de “filho sem entranhas”, entre outros. Porém, a ligação telefônica para a filha mais velha, contando o horror da descoberta, provocou nele um acesso de risos, mesmo debaixo de safanões. Recompôs-se preocupado com a situação séria e o destino de sua querida amiguinha. Tratou de raciocinar rápido: jurou se penitenciar junto ao pároco, além de que “Menina” seria de agora em diante o nome oficial e verdadeiro. Sofreu agruras por instantes que lhe pareceram horas, juntou as mãos, ajoelhou e explorou ao máximo a afeição do pai pela cachorrinha. Dona Laura e o marido continuaram atirando-lhe na cara todos os trabalhos e sustos por que passaram para receber de volta tamanho desrespeito. Naquele momento valia tudo: invocou o nome de Deus e reafirmou sua intenção de confessar na igreja seu delito, estancando assim o choro copioso de dignidade ofendida e sentimentos feridos.

O telefone tocou e ele atendeu; era a mana:

— Mas Robson, que ideia foi essa? Ficou maluco? Mamãe me encheu a paciência e pior, acordou o Junior, me dando um trabalhão. Toma juízo!

Ora, a Leila ficou uma arara não com o que eu fiz, mas porque o garoto acordou” , pensou ao desligar o telefone.

Saiu para o jardim, olhou o céu carregado mas sem chuva e resolveu dar uma volta com a cachorrinha. Já na calçada, ainda ouvindo os protestos dentro de casa, alisou a cabeça da irrequieta amiga dizendo com um sorriso matreiro:

— Vamos passear, Sua Mãe !

E a irreverência seguiu seu curso.

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Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.

Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.