POR JUREMA DE AVELLAR

Dizem que o coração não sente dor, apenas se rebela com o gasto e se retira. Será? Falarei aqui de um grande vilão, nosso companheiro: o Amanhã. Ao longo da vida, você perde momentos preciosos exercendo as obrigações, seguindo a linha prática das tarefas, espiando com medo o esvair do tempo, sempre resumido. A noite te reserva o resumo antecipado do dia seguinte, cheio de repetições, às vezes até com maiores desafios e a sensação de que não houve espaço para praticar o carinho, o amor. Mas não há o que fazer, o dia se foi…

Vivemos sob o lema do Amanhã. Ele nos trará isso e aquilo; nele faremos o de Hoje e o de Ontem , esquecendo que este “patife” vai virar passado, trazendo os mesmos arrependimentos e a mesma sensação de fracasso por não tê-lo vivido e aproveitado plenamente.

Face a face com a realidade representada agora nos rostos dos netos, procuramos emocionados, em seus traços, perdidos lá atrás, o Ontem e nosso coração se contorce, amplia, dilata e confrange. Buscamos, quase em desespero, recuperar em minutos anos e anos que deixamos escapar por entre os dedos. Queremos por em dia afagos, abraços, carinhos e beijos sem fim, como dívidas não pagas no passado.

E sofremos bastante quando somos afastados, alijados, empurrados rudemente para o que dizem ser o limite; como se tal existisse quando se fala de afeto.

Lembrem-se, aqueles que exercem esse poder, que para vocês também haverá o conflito final, o vilão os espreita nas curvas do tempo e, não se iludam, ele dói.

******

Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.