Por Jurema de Avellar

Foto de David Besh no Pexels

Sentados na soleira da porta, Vinicius, João e Martinha aguardavam a chegada do avô de Vinicius que lhes prometera uma boa história. Vovô Francisco era ótimo contador: alegre, criativo, fazia piadas e arrancava risadas, além de segurar a atenção. Ele chegou a varanda e se acomodou em sua cadeira de balanço, pronto para cumprir a promessa feita às crianças.

— Estão prontos para ouvir a história?

— Estamos! — responderam.

— Vou contar a vocês a história do caboclo Anselmo, que vivia lá no cerrado, nas terras do Jalapão. — e começou:

“ Três crianças, todos amigos, olhavam certa noite o céu estrelado . Queriam dar nome a todas as estrelas que brilhavam sobre suas cabeças mas eram tantas, todas bonitas e tentaram contá-las. Eles ficaram de pé no centro da rua e começaram a enumerá-las quando de repente uma ventania feroz os envolveu num redemoinho. Surpresos, deram as mãos. Embora fortemente apertados, juntos giravam, subiam e desciam e em dado momento aquela força misteriosa começou a empurrá-los para cima, mas sempre em grande rodopio. Três pares de olhos assustados viam cada vez mais depressa a rua, os telhados das casas, o bairro, toda a cidade, tudo ia ficando pequeno e distante.

As três bocas abertas pareciam querer se juntar num monumental berro de socorro. O vento tinha força e personalidade. Empurrava-os para cima esticados, ora para a direita, ora para a esquerda. Obrigava-os a se curvar para frente, pressionava suas colunas parecendo querer fazer suas cabeças tocarem os próprios pés. Este vento era poderoso como o rugido de um leão e outras vezes era afinado como o pio de um pássaro. “

— Quais eram os nomes das crianças? — indagou Marta.

— Acho que era Martinha, João e o outro… acho que Vinicius. — respondeu Francisco com olhar maroto.

As crianças se remexeram entre risos. Ele continuou:

“ O trio viajou naquela força misteriosa segundos intermináveis para então serem deixados mansamente pelo seu sequestrador inusitado num macio chão prateado. O que acontecera? Onde estavam? Os dedos que se enrijeceram no aperto uns dos outros se soltaram e todos empreenderam em si mesmos rigorosa massagem. João fez cara de choro e falou:

— A culpa foi sua, abestalhado! — gritou olhando para Vinicius.

— Eu? Ora essa…

— É — acrescentou Marta — desrespeitou alguém…

Olhavam em volta, desconfiados e perdidos no meio daquele nada quando, um pouco distante, no meio de uma névoa azulada surgiu um homem vestido de luz. A figura veio se aproximando e clareando tudo ao seu redor.

— Olá crianças!

Endurecidos pelo susto, mas abertos à esperança as crianças olhavam para ele.

— Eu sou o Guardião dessa nuvem. Vi vocês lá embaixo, olhando para a abóbada celeste e resolvi trazê-los. Queriam contar as estrelas? Jamais conseguiriam. Muitas morrem mas deixam a luz por muito tempo e outras nascem a cada segundo. Ficariam cansados.

Sua figura lembrava os filósofos gregos. Não parecia uma pessoa assustadora. Era gentil, simpático, por que temer?

— Por que não se sentam? Terão que fazer o caminho de volta. Enquanto isso vou lhes contar a experiência de alguém que mora na Terra.

Os três obedeceram curiosos.

— Há lá embaixo, num lugar perdido, um homem chamado…

— Anselmo! — disseram as três vozes.

— Isso mesmo! Era um morador do campo, um trabalhador honesto e simples. Sua maior admiração era pela Lua Cheia. Aguardava por ela todas as noites, das quais ela era a dona. Uma noite, depois de uma garrafa de pinga é claro, a bela dona surgiu para ele e ganhou olhos, nariz e boca. Logo amarraram uma comprida conversa. Anselmo se queixou de sua vida difícil, do trabalho pesado, do dinheiro curto e do casebre sem cor e sem beleza.

Dona Lua ouviu os lamentos e lhe deu razão. Os habitantes daquele planeta nasciam, criavam-se e morriam sem se dar conta de sua presença. Lançavam-se aos oceanos desprezando suas fortes e decisivas influências. Deitava sua luz sem distinção sobre rostos de cores diferentes. Coroas de reis e rainhas, armaduras polidas, assim como lanças e espadas, tudo por ela realçado com a mesma intensidade. Faces famintas, corpos cobertos de luxo ou andrajos, todos ganhavam sua luz com igualdade. Esses humanos não punham reparo em sua beleza, indistintamente lançada nos mares, florestas, desertos e cidades.

— O problema — ela disse — é que tem muita coisa ruim à solta aí embaixo. Mas se alguém corajoso e de bom coração fizesse uma mágica…

— Que tanta coisa ruim é essa? — perguntou o espantado caboclo, segurando a preciosa garrafa de pinga.

A Lua revirou os olhos redondos, bateu os cílios enormes e repuxou a boca, fazendo cara de enfado.

— Ora meu caro, são tantas… A Ganância, a Maldade, a Desonestidade, a Mentira… se eu continuar dando nome a esta boiada, daqui a pouco estarei tão alta quanto você.

— Não imaginava que e senhora aí em cima visse isso tão bem.

A Lua fez cara de sabida e ele reparou que ela já estava bem grande, afinal os minutos corriam. Ficou de pé com visível interesse.

— Espera aí, minha rainha. Essa mágica, como se faz?

— Como eu disse — respondeu ela já envolvendo a grande árvore — tem que ser alguém de coração puro.

O caboclo coçou a orelha; mais puro que ele não havia.

— Pois a senhora me ensine essa tal. Ninguém é mais corajoso ou generoso do que eu.

A Lua semicerrou os olhos, batendo vagarosamente os grandes cílios, ainda em dúvida. Mas por que não dar crédito ao admirador simples de boa prosa? Aquele pobre homem passara grande parte de sua vida enviando-lhe o olhar embevecido, envolvendo-se em sua luz, graciosamente dada e por poucos apreciada.

— Você vai ter que fabricar com suas mãos, sem ajuda de mais ninguém, nas suas horas de folga, um grande cesto.

O trabalhador agora caminhava para frente pois a sua bela já estava banhando o telhado do galpão. Decidido, pulou a cerca.

— Cresce nestas terras — continuou o satélite — um cipó fino, muito belo, todo dourado e é com ele que você vai tecer o cesto, o maior que puder. Enquanto tece vá resmungando as palavras Ouro, Diamante, Esmeralda, tudo que atraia essa turma já mencionada.

Ele corria tentando não aumentar a distância, tentando se adiantar, mas ela já estava mais alta do que o topo das árvores próximas. Tropeçou no campo, caiu em desníveis, sempre buscando acompanhar a amiga.

— Faça com capricho — gritou ela — e não se esqueça, não pode beber durante o trabalho, esqueça a cachaça. Espere que entrem as “feiuras” e só então feche o cesto, sempre antes do amanhecer. Eu estarei de volta toda cheia para lhe ver. Só poderá voltar a beber quando o cesto estiver cheio.

O caboclo correu mais alguns metros, amassando arbustos, preocupado com o morro já perto.

— Dona Lua, está muito alta. Ô, ô… ops! E se eu cair de cansaço, de sono…

— Chame a Perseverança — gritou ela com os olhos arregalados.

— E se eu cair no sono?

— Cante a canção da sua viola!

E ela ficou tão alta no céu que não dava mais para ouvir. Anselmo então se jogou no chão extenuado.”

— E o caboclo achou o capim mágico? — quis saber Martinha.

— Sempre esteve lá, belo como ele só — respondeu o Guardião — mas ninguém prestava atenção. Era uma dádiva da natureza e naquela noite, com um enorme feixe colhido, ele começou a tecer o cesto, à luz de lampiões. Mesmo com pouca luz, trabalhava com rapidez e afinco, repetindo as palavras ensinadas: ouro, rubis, diamantes e tudo que atraísse a humanidade e a levasse para maus caminhos. E quando o sono ia chegando ele cantava a sua música.

O seu trabalho de tecelão todas as noites atraiu realmente muita gente interesseira , mas o Altruísmo, sem que Anselmo soubesse, começou a montar guarda.

— E a Perseverança? — quis saber João.

— Também o observava . — esclareceu o Guardião — E aquele cesto foi tomando forma, com um belo fundo, largo como um barril. E não é que a Dona Lua tinha razão? A Maldade foi a primeira a pular para dentro, depois veio o Egoísmo. A Indiferença e a Desonestidade chegaram juntas. A Ganância e a Cobiça, primas que eram, também se malocaram no fundo, já todos à procura de valores. A Mentira chegou dando palpites mas foi desmascarada pela Arrogância.

— E o Anselmo não dormia nem um pouco? — indagou Vinicius.

— Claro, no finzinho da noite. — respondeu o Guardião — Ele descansava com o Altruísmo velando-lhe o sono.

O pobre homem estava muito cansado, afinal fazia dias que trabalhava sem parar. Todas as noites lá estava ele tecendo e bem ao seu lado instalava-se a Preguiça, apoiada na goiabeira, indolente como o seu nome já dizia. O caboclo continuava a trançar aquela fina trama dourada, as mãos cheias de calos, encorajado pelos bons fluídos das forças do bem.

Furtivamente a Infâmia foi se aproximando.

— Que horror! — disse a garota, tampando a boca.

— Pois é. — confirmou o Guardião — Se aproximou, se pendurou na borda do cesto e olhou lá no fundo. Todos os maus sentimentos se moviam numa procura incessante. De repente a Maldade, num impulso forte, botou a cara de fora, mas não conseguiu sair, dando de cara com a Preguiça e a Infâmia do lado de fora. Se deixou, então, escorregar de volta ao para o fundo.

— O Anselmo não deu um cascudo na cabeça da Maldade? — perguntou Vinicius.

— Na verdade — explicou o Guardião — Anselmo não via as forças do mal, só seu coração puro se sobressaltava. E com os olhos pesados de sono ele fez o que?

— Cantou a sua música — disseram os três em coro.

— Isso fez com que a Preguiça e a Infâmia se afastassem correndo, meus caros. Elas não aguentavam mais ouvir essa música. Foram procurar um lugar sossegado e conspirar. Isso mesmo: conspirar e tentar descobrir o que estava acontecendo. O fato estranho era o trabalhador ter parado de beber. Talvez a pinga o fizesse errar a trama. Decidiram unir forças e arranjar a bebida. Mas como? Indagou a Preguiça, já se encostando.

— Vou penetrar nos sonhos da mulher dele — disse a Infâmia. — Sou boa nisso!

— Guardião, faltava muito para ele terminar? — perguntou João.

— Só uma carreira — respondeu o narrador. — E as duas pestes entraram no sono da mulher, insistindo para ela levantar e levar a bebida.

— E ela levou? — quis saber João, nervoso.

— Levou! Levou e deixou bem ao lado dele. Ela caminhou de pernas bambas, sem saber o que estava fazendo. Largou lá a garrafa e voltou a dormir. Mas o Altruísmo e a Perseverança chegaram bem na hora e o caboclo terminou a boca do cesto. A Preguiça, decepcionada, não quis saber de mais nada e pulou para dentro do cesto, seguida logo após pela Infâmia. Quase todos os malefícios da alma humana estavam lá dentro, mas rodeando as atividades todas as noites ainda havia um sentimento mau do lado de fora: o Ciúme. Ficou ali escondido, esperando o que ia acontecer. Tão escondido que a Perseverança e o Altruísmo se afastaram confiantes. Exausto, o caboclo pegou o último pedaço de cipó dourado e amarrou a tampa do cesto. Levantou os olhos para o céu estrelado e como nunca em sua vida se sentiu feliz: conseguira um grande feito, seu coração alterado lhe dava essa certeza. A Humanidade lhe seria grata pelo resto da eternidade. Dona Lua ia ficar orgulhosa quando reaparecesse…

Mas o Ciúme estava insatisfeito. Aquele simples homem iria receber aplausos da senhora da noite? Voou por cima da cabeça do homem cansado, usou todo seu poder para aproximar dele o cheiro doce da cachaça. Anselmo puxou o cobertor velho e sentindo o aroma inebriante pensou “ agora mereço uns goles…

Ele bebeu metade da garrafa, até dormir pesado, esquecido da recomendação feita. O sol ainda não havia nascido e o Ciúme puxou a ponta do cipó, abrindo uma fresta na tampa do cesto. A magia se perdeu e todos os degenerados foram, um a um, se libertando do cativeiro, espalhando-se novamente pelo planeta, todos com pressa, temendo a luz do sol.

Os meninos ficaram decepcionados.

— Eu sei, foi uma pena… — disse o Guardião. — Mas quem sabe um dia a Lua escolhe outro caboclo de coração puro?

— Obrigado senhor Guardião. Adoramos ouvir a história mas temos que voltar para a Terra. Como faremos isso? — disse Vinicius.

— Quem os trouxe, foi o Vento? Pois esperem por ele aqui, quietinhos, que ele os levará de volta.

O Guardião se levantou e com um último aceno desapareceu na bruma azul. As crianças deram-se as mãos e ouviram um zumbido. A camisa de Vinicius se repuxou, João abriu a boca e a saia de Martinha se encheu como um balão. O chão fugiu debaixo dos pés dos pequenos e a visão daquela nuvem firme foi se esmaecendo. Ouviam agora o rugido do Vento, que entrava por seus narizes e bocas.

A viagem foi delirante mas logo os três estavam na Terra em segurança, já com saudade do passeio e do Guardião das nuvens. Valera muito a história do Anselmo.”

— E agora — disse Francisco — os três vão se preparar para dormir uma boa noite e e sonhar!

As crianças, pra lá de satisfeitas, concordaram e prometeram levar para sempre as mensagens do conto. Agora Francisco olhava o céu e pensava: “como ignorar tanta beleza deposta gratuitamente aos seres humanos?”

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Nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Aprendeu a ler antes dos seis anos e escreve desde os sete. Dona de casa, mãe e avó, encontrou na escrita sua expressão.

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